Aula 1 - O ponto de mutação
O ponto de mutação
“O
ponto de mutação” (1990) – filme dirigido por Bernt Capra baseado no livro com
o mesmo título do físico austríaco Fritjof Capra – se trata literalmente, visto
que o título do filme em inglês é Mindwalk,
de um passeio por reflexões que englobam as mais diversas áreas impactadas e
concebidas pela existência do ser humano; a natureza, a ciência, as artes e até
mesmo as relações interpessoais.
Os cenários do filme majoritariamente
se referem ao Monte Saint Michel, na França. Ambientados nessa cidade com
características medievais, encontram-se um político e seu amigo escritor – Jack
Edwards e Thomas Harriman, interpretados pelos atores John Heard e Sam
Waterstone – e a física Sonia Hoffman – interpretada pela atriz Liv Ullmann –
todos passando por um momento de autorreflexão e autocrítica de suas vidas até
aquele momento. Jack busca o amigo Thomas após perder as eleições em que
concorria ao cargo de presidente dos EUA; Thomas refere-se àquele momento de
sua vida como uma “crise de meia idade” e Sonia se exila na ilha para refletir
após descobrir que o trabalho que vinha desenvolvendo durante a vida estava
sendo utilizado na indústria bélica americana. Os três personagens se mostram
insatisfeitos de alguma maneira com suas vidas, mas ao contrário de Jack – que
não vê muito sentido no trabalho que faz e nas pessoas que o cercam – Sonia e
Thomas vão além, e identificam na sociedade em que os cerca o que eles chamam
de ‘crise de percepção”.
A partir de uma cena filmada perante
um relógio de torre de igreja, os três personagens iniciam um diálogo fazendo
referência ao tempo mecânico e ao pensamento cartesiano desenvolvido por René
Descartes, que por mais que nas ciências tenha sido a muito superado,
permaneceria como uma referência organizadora das práticas e do pensamento
humano até aquele momento. Compreender o mundo como um conjunto de partes que
podem funcionar de maneira desconexa seria então um dos motivos principais das
grandes catástrofes humanas e naturais da contemporaneidade. Durante o dialogo
desenvolvido durante toda a película é discutida a importância do pensamento
sistêmico – ou como colocado por Sonia – a compreensão de uma “Teoria dos
Sistemas” – que compreende o mundo e suas partes todas como organismos
interligados e interdependentes. Não seria possível seccionar os grandes
problemas da humanidade e resolve-los em partes, mas sim tentar compreende-los
como um todo unificado, para que as soluções aplicadas fossem eficazes e
duradouras.
Vejo que atualmente o Ensino de
História nas escolas brasileiras passa por uma situação semelhante. Embora as
produções acadêmicas falem em processos históricos e sistemas
intercontinentais, descritos detalhadamente em inúmeras teses e livros de
divulgação científica, o currículo de história seguido nas escolas regulares
públicas do estado de São Paulo segue fragmentado, dividido em períodos que
podem aos olhos dos alunos – dependendo da estratégia de trabalho do professor
– dar a impressão de existir de maneira independente, sem qualquer relação uns
com os outros. Esta descontinuidade e independência dos conteúdos se mostra
ainda mais evidente entre diferentes disciplinas. Muito comentada nos
documentos norteadores oficiais da área de educação, a interdisciplinaridade
ainda dá os seus primeiros passos nas escolas.
Como no filme, esta crise de
percepção parece ser identificada por muitos profissionais em escolas,
universidades, laboratórios e empresas; mesmo assim a maneira com que as
instituições públicas e privadas têm buscado resolver grandes demandas como uma
melhor saúde pública e um melhor sistema de ensino continua sendo fragmentada,
resolvendo pequenos problemas e não os grandes fatores causadores dessas
demandas.
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